Com a voz do coração dou as boas vindas e agradeço a visita, porque, a semente mais pura do pensamento, está no coração.





04/02/13

POESIA

afluiu dentro de mim.
descerra-me a alma
incendeia-me o pensamento
suga-me o coração
até à criatividade.

asa de sonho
doce de amor
vivo sabor.

não esconde o prazer
de possuir a lança do fogo
a fazer chama
que chama todos os sentidos.

em êxtases de sede
deixa-me viciada
a gerar
o prazer da palavra.

(é chama ou chaga que a arder se ama?)

" in" Pleno Verbo

25/11/12

Imagem Spence Thomas Ralph
deixa-me descobrir misteriosos lugares
ser gaivota na alma enchendo o espaço
tocar com as asas as ondas do mar
beber-lhe a espuma sem o drama
de o ver chorar pela poluição
deixa-me descobrir misteriosos lugares
ter asas na alma para nas árvores pousar
sem tocar na terra nem o vento desbaratar
o meu ninho de esperança
deixa-me descobrir misteriosos lugares
ser Vénus no coração e criança no olhar
sempre viva
sempre doce
com sonhos alimentar
na eterna viagem da imaginação
sem cenários gastos por dilemas e agitação.

deixa-me ir onde nunca fui
deixa-me ser o que desejei ser.

"in" livro Pleno Verbo


11/11/12

autor da imagem JANUSZ
não sei se irás para outro lugar
para outra terra ou para outro mar
se vais encontrar o céu ou o inferno
com pássaros de fogo ou lírios de brisa

não sei se cantarás a teoria dos instintos
se darás ao verbo a lucidez do universo
ou se irás tão ausente a chorar por ti
entre o silêncio de todas as luas

não sei
de nada sei
sobre o lugar que poderás encontrar

o imaginado deixará de ser mito
para passar a ser começo
do recomeço sem fim?
serão todos os sossegos acordados
e todos os segredos revelados
quando regressares ao mesmo lugar
na viagem do tempo?


Teresa Gonçalves

01/11/12

AVISOS DA NATUREZA


no limiar do desespero
sem tréguas acumuladas
cavalga magoada
levantando a fúria dos ventos
com compridas línguas de água
vagas de granizo - gelo - trovoadas
e o seu leito secreto
estremece
abre fendas num cenário de dor
entre escombros de pedra e lama
carimbando de catástrofes as páginas
afirmando:
ser o homem uma péssima imitação de divindade
ser a vida uma efémera passagem
um empréstimo que temos
um passaporte com prazo de validade.


2001
"in" livro Singelo Canal

23/10/12

sinto saudade, mãe, daquela menina.
daquela menina, mãe,
que falava com os animais, as árvores e as flores.
daquela menina sentada no peitoril da janela à noite
a falar com as estrelas e a lua
sinto saudade, mãe,
daquela menina que ao amanhecer fugia
para o baldio e ali abria as mãos ao céu a falar com Deus
como se o mundo se reduzisse àquele lugar
e a distância entre a terra e o céu
fosse somente a luz da inocência.
sentada no chão da terra, suspendia a respiração
para escutar os sons da Natureza
que eram para si a resposta de Deus.
depois dançava e ria, corria para casa com fulgor no rosto
carregada de energia.
sinto saudade, mãe,
daquela menina a chorar com medo de adormecer
temia os sonhos voltarem acontecer
com imagens de arrepiar.
sinto saudade, mãe,
daquela menina rebelde e doce
ajoelhada a teus pés pedindo perdão
sentindo-se culpada de ter nascido
quando te via irritada e preocupada
pelas dificuldades que a vida te impôs.
sinto saudade, mãe, daquela menina.
lembras-te dela, mãe?
ela não morreu.
sofre em silêncio por ter perdido a inocência
no coração da mulher que sou eu.

"in" livro Pleno Verbo


16/10/12

                                            
não quero ouvir cantar o vento
nas horas em que o sol chora
nem saber onde vive, onde mora,
é um bem querer...num só lamento.

canta quando eu não quero,
p’ra meu bem ou mal…isso que importa?
é chaga aberta batente na minha porta
por lá viver, um coração sincero.

mas disso o vento não quer saber
e dentro do meu peito há pétalas a arder
de flores carinhosas…outrora…

sou um jardim queimado… ou uma estrada
ou não chego sequer a não ser nada?
cala-te vento. quero silêncio quando o sol chora.



18/09/12

Demência dos deuses

dentro adentro por dentro
dos dias dissolvidos no vazio
dilatam-se dramas, dúvidas, descrenças
despem-se destinos vestidos de ausências
desperta dorido desespero
definham palavras despojadas de vontade
no silêncio demorado do devir. 
dançam demências à deriva
em declarado domínio de poder
delírio desenfreado dos desequilíbrios
desenhados à distância
que na distensa invisibilidade
disparam em todas as direcções
a desmembrar a dignidade. 
deixem-se deuses demónios de desejar
mais decretos-leis de desigualdade
porque o desígnio derradeiro e dominante
sem distinções… também a vós… irá domar


Teresa Gonçalves "in"livro painel multicor